Testemunhos

À Boleia com Deus

Se há algo que faz parte da paisagem das estradas e ruas de Cuamba e também de todo o Niassa são bicicletas, bicicletas essas de aspecto frágil e já muito desgastadas que chegam a transportar 2 ou 3 pessoas e que quase sempre transportam mercadoria, muitas vezes carvão ou capim, mas também camas, colchões, galinhas e até cabritos.

Bicicletas bem mais simples do que estamos habituados, amortecedores apesar das estradas esburacadas são luxo do mundo ocidental. E travões? É normal não existirem e para travar usa-se o pé, aplicando-o sobre a roda em movimento.

Durante estes dois anos que passaram (num instante) a bicicleta foi o meu meio de transporte preferencial, usava-a quando ia trabalhar na UCM (Universidade Católica de Moçambique), às compras ao mercado, ir às calamidades1 ou simplesmente jogar basquetebol.

Na época seca é normal encontrar se uma “Bicicleta-Táxi” a qual por um preço reduzido nos transporta onde quisermos. Algumas vezes andei de “BiciTáxi”, uma experiência pouco confortável mas que me pôs a pensar que..

A minha vida em Portugal assemelhava-se muito a essa viagem, não, não usava bicicleta em Lisboa. A Bicicleta era a minha vida, era eu que a conduzia com as mãos no guiador, a pedalar a um ritmo elevado. Levava comigo à boleia um Passageiro especial. A verdade é que conduzia a bicicleta por caminhos quase sempre iguais, dia sim dia sim, e algumas vezes lá me virava para trás e ia apontando para o Passageiro alguns locais e situações onde O costumava reconhecê-Lo, “Costumo ver-Te aqui, e já agora ali também”.

Agora, aqui em Cuamba, sinto que trocámos de lugar, passei para o lugar do Passageiro e deixei que Ele tomasse o guiador e pedalasse com mais calma. Esta pequena e aparente insignificante mudança fez-me ser conduzido muitas vezes por novos caminhos, lugares e pessoas que eu nunca sequer imaginei ser possível.

Se há algo que este tempo me deu como uma certeza é que Ele nos convida a todos para “subirmos à Sua Bicicleta” e fazermos caminho Juntos.

A lista das nossas desculpas para não aceitarmos esta boleia é grande, mas acredito que quem embarca nesta viagem e com este Ciclista, a sua vida nunca mais será a mesma.

Diogo Gaspar
Cuamba, 2016-2019


1 - Calamidades = Mercado de roupa em 2ª mão