Testemunhos

A outra margem

Há quase um mês passei a ponte para a margem sul, a outra margem, para começar a missão que me foi entregue, ser missionária na Caparica-Pragal. Numa casa desconhecida, com uma nova comunidade que teria de conhecer e um grande território e novas realidades para descobrir.

E tem sido isso mesmo, um percurso curto, em tempo, mas, que aparenta, ser muito longo. Um percurso de conhecimento dos outros, mas também de mim própria, um percurso com muitos momentos bons, mas também alguns menos bons, um percurso em que a outra margem é uma realidade tão perto, mas por outras vezes me parece tão distante.

Durante o meu ano de formação, ouvi muitas vezes falar do processo de assentar, de assentar em missão, de assentar ideias, de assentar na construção de comunidade, de assentar no meu projeto, naquilo que me foi confiado. Hoje, finalmente, percebo um pouco o que todos me queriam dizer.

É difícil desligar das pessoas que deixámos, das que nos apoiaram nesta loucura de ser missionário no nosso próprio país. É difícil distanciar das facilidades do dia-a-dia, como o acesso ilimitado à internet, à televisão e notícias, de ter todos as coisas a curta distância. É difícil dar a entender que sou feliz na minha escolha, e que a fiz livremente, e não por “não haver outras opções”. É difícil explicar às pessoas, que apesar de estar só na outra margem, não posso ir a casa de 15 em 15 dias.

Ainda não me habituei aos aviões a passarem, às pessoas brincarem com o meu sotaque do Norte, ao barulho dos carros e camiões, ainda não sei de cor os bairros e as ruas, e ainda não decorei o nome de todas as pessoas que os Leigos para o Desenvolvimento conhecem e com quem trabalham no território. E ainda, não me acerto com todos os relatórios, reuniões, papéis, faturas e prazos que tenho de saber.

Mas de uma coisa tenho certeza, que muitas vezes apesar de achar que não tenho as capacidades e forças necessárias para esta missão que me foi entregue, tenho mesmo de confiar. Como confiaram em mim, como o fazem todos os dias. Duas frases tem vindo à minha cabeça nos últimos tempos, ditas por pessoas que confiam em mim. A primeira é que Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos. A segunda é que tudo vai correr bem, e mesmo que se não correr, tudo ficará bem.

Tenho tentado aplicá-las na minha missão diariamente e pô-las em prática nas minhas ações. Sim, esta missão será um longo caminho, com momentos de consolação e momentos de desolação, mas com a ajuda de todos os que me apoiam e confiam em mim, família, amigos, anciãos, comunidade, tudo correrá bem.

E a outra margem? Sim, essa passará a ser a minha margem.

A outra margem

Teresa Oliveira
Caparica-Pragal, 2018-2019