Testemunhos

A Dança da Mudança

Há mais de 10 anos no Bairro da Graça, os Leigos para o Desenvolvimento já se cruzaram com muita gente. Foram vários os projetos, mas mais ainda os amigos. A verdade é que os voluntários vêm e vão, mas estas pessoas ficam. Chega o mês de Setembro ou Outubro e veem ir embora as pessoas com quem conviveram, trabalharam e partilharam tanto durante um ano das suas vidas.

Vai escapando dos seus olhares alguma tristeza mas predomina uma imensa gratidão pelo tempo vivido em comum. E passam por isto todos os anos. Todos os anos. Se isto faz com que recebam com menos alegria e entusiasmo os novos voluntários? Nem pensar! Sabem que daí a um ano vão sofrer de novo mas dão-se na mesma medida e acolhem com o mesmo amor que vão demonstrando ao longo do ano. E passam por isto todos os anos. Todos os anos. Sei que custa, que é difícil, mas fazem com que pareça fácil… Como quando dançam.

Já para mim, que renovo para mais um ano em missão e vejo partir os manos Gonçalo, Teresa e Rita, é tudo novo... (como quando danço). Dizem que quando termina a missão e voltamos para casa, há uma parte de nós que fica cá, que não se recupera. Isso ainda não posso comprovar mas por agora sinto que uma parte de mim foi com o Gonçalo, outra com a Teresa e outra com a Rita. Cabe-me ficar por cá, a deixar todos os dias o que tenho e a fazer render aquilo que deles ficou em mim. Como é normal, na dança, tivemos alguns ensaios que correram menos bem, alguns tropeções, mas nada de lesões graves! Fomos trabalhando, insistindo até que os passos já estavam coordenados, já bastava apenas um olhar para antecipar o movimento uns dos outros e já só estávamos a desfrutar.

Marta a dançar

Mas agora a música mudou e com a chegada da Liliana e do Miguel, há que aprender uma nova coreografia. Entretanto o som já toca, o ouvido treina-se e o ritmo apanha-se. Já vamos sentindo a batida, percebendo o lugar de cada um e aprendendo os primeiros passos, com cuidado para não pisar ninguém.

Na verdade, dançar nunca foi o meu forte, mas não faz mal. Porque nesta dança quem comanda é Ele, eu só tenho que estar atenta às indicações e seguir os Seus passos.

Marta Horta
Benguela, 2017-2019