Testemunhos

O canivete suíço e o desenvolvimento

Há umas semanas lia uma história do livro “Ao largo” de José d’Almansor. Falava do canivete suíço.

Temos sempre tendência a dominarmos, a ser o nosso ‘eu’ quem governa procurando desesperadamente atenção e reconhecimento através das nossas ideias inovadoras e projetos ‘espetaculares’. Esquecemo-nos porém que o desenvolvimento conjuga-se na primeira pessoa do plural.

Por outras palavras e como tão bem o escreve o Pe. José Maria Cardoso: achamos que podemos ser o canivete suíço. Não precisamos dos outros: nós furamos, cortamos, pregamos e aparafusamos. “É claro que os canivetes suíços também têm os seus receios, o que é natural. Perante uma senhora chave de fendas, que só faz aquilo mas que faz muito bem, eles encolhem logo o desandador. E se se lhes encosta um mestre berbequim, o canivete suíço já não tem coragem de mostrar a broca. Mas tem sempre dificuldade em reconhecer o valor e a eficácia dos outros. Perante um martelo, ele diz logo que faz a mesma coisa com a cabeça de um prego, e que do martelo sempre desconfiou por ter as orelhas grandes; e que o berbequim não precisava de fazer tanto barulho por causa de um buraco e que aquilo é só para chamar a atenção (…) ”!

Os Leigos para o Desenvolvimento têm vindo a trabalhar com jovens com potencial de liderança: jovens que demonstram vontade de organizar e mexer-se! Com eles tenho aprendido muito. Acho que temos feito um caminho muito bonito em que todos aprendemos a reconhecer no outro os seus talentos, a não irmos ao nosso ritmo de canivete suíço e a pouco a pouco largar o discurso de vítima (muito próprio dos canivetes suíços) para aprendermos a servir. Escutar, dar tempo e aprender a trabalhar com as pessoas.

Eu própria tenho aprendido muito a largar o meu ‘eu’ de canivete para saber esperar, fazer com e ouvir. No fundo é a arte de saber guiar e deixar-se guiar.

5 encontro lideres caparica pragal

Constança Turquin
Caparica-Pragal, 2018