Testemunhos

Casa da Esperança

Se a minha missão fosse um jogo e eu tivesse ido parar à “Casa da Esperança” o cartão correspondente seria: “Estás com sorte! Chegaste à melhor casa do jogo! Ficarás aqui um ano. Esta casa ajudar-te-á nas alegrias, nas surpresas e nos desafios que estão reservados para ti. Confia!”

E é curioso começar o meu testemunho desta forma… Porque jogar não é de todo a minha especialidade nem tampouco a missão tem sido um jogo (embora aqui esteja a aprender a jogar também, mas já lá vamos)…

Vivo na Casa da Esperança. Não é, por exemplo, casa “de esperança”, nem “casa esperança”, e isto faz toda a diferença. Quem me conhece sabe que esta “da esperança” tem feito a minha vida e, de repente, eu estou a viver exatamente na “casa da esperança”. E esta casa é realmente mais que um conjunto de portas, janelas ou divisões. É a casa da esperança porque é casa da confiança!

É aqui que deposito toda a esperança no projeto do Grupo Comunitário quando preparo o meu trabalho antes de ir para o bairro, é aqui que vivo com as pessoas que me dão esperança num dia seguinte melhor e foi aqui, e não menos importante, que aprendi a jogar ao Eleven – jogo de cartas – e que me trouxe a esperança de um dia saber jogar outro jogo de cartas que não o “peixinho” e de ver nos olhos dos meus manos a esperança que eu acerte a próxima ronda do jogo. :-)

Mas bom, desta vez não quero só dar testemunho do que tem sido a missão (nem posso quando tento escrever sobre esta casa!).

Deus convidou 76 voluntários para aqui viver. A mana Luísa, mana Cassi, mana Ilda e a mana Florença também já viveram cá, a Mana Ju cá continua. A cada um de nós pediu para fazermos desta casa, sendo Seu empréstimo, a casa das pessoas. E é isto mesmo: para todos “a casa da esperança” é dos LD [Leigos para o Desenvolvimento], para os LD a casa é das pessoas! Hoje escrevo, então, um pouco de tudo quanto foi e continua a ser esta casa para a missão de Benguela.

Casa da Esperanca

Nesta casa já houve campainha, hoje já não há mais, porque com convite ou sem convite as pessoas vinham e vêm para rezar (e alguns até para celebrar Eucaristia), trabalhar, festejar ou só cumprimentar. Nesta casa já houve uma biblioteca. Consigo imaginar pelo testemunho dos Anciãos1 que aqui passam, e pelas pessoas que vou conhecendo e que estavam relacionadas com o projeto, o que se vivia aqui de esperança. Nesta casa já houve um django2, onde aconteciam noites temáticas. E tento imaginar a tamanha esperança que saia destes portões com cada uma das pessoas que vinha para refletir, discutir, ensinar e aprender sobre os temas tratados. Nesta casa houve, e continua a haver jantares, almoços, festas ou só sentada básica3, na verdade não importa em que modo as pessoas estavam e estão nesta casa, importa que faziam e fazem esta casa transbordar em esperança, esperança traduzida em amizade, alegria, confiança, disponibilidade e entrega. Tanta vida, são tantas as vidas que fazem a história desta casa!

E pergunto-me muitas vezes se haverá melhor casa para se viver... Talvez haja, guardo a esperança que sim. Mas esta casa, Casa da Esperança, será para sempre dos Leigos para o Desenvolvimento e, por isso, parte da vida de muitos e parte de mim também.

Rita Marques
Benguela, 2017-2018

(1) Anciãos - anteriores voluntários dos Leigos para o Desenvolvimento

(2) Ondjango é um lugar de conselhos onde os “mais velhos” interagem com os “mais novos”. Lugar de reuniões/resolução de conflitos, onde em círculo e a volta da fogueira, alguém com poder relevante, tem lugar de destaque.
(3) Expressão para designar um convívio de pouco tempo, simples, com amigos mais chegados.