Testemunhos

De onde nasce a competência?

670 dias! Nem mais, nem menos. 670 dias de África, 670 dias de crescimento, 670 dias de gratidão. 670 dias passados desde que deixei a minha amada e saudosa pátria portuguesa, mas na companhia de povo e gente que me faz sentir que nunca saí de casa.

Primeiro em São Tomé e Príncipe, agora em Moçambique, vivo uma experiência que, dia após dia, faz com que a paixão por esta terra e esta gente não pare de crescer…

Paisagens de cortar a respiração, montes, vales, planícies… verdes, amarelos, azuis, um arco-íris pintado por Deus… Assim é a casa do povo moçambicano, a natureza da qual as pessoas desfrutam e fazem parte.

Aqui, a natureza é mais do que uma mera fonte de recursos: é mãe.

Aqui, onde há mais famílias do que casas: a família é, por si só, uma casa.

Aqui, as crianças brincam na rua, cuidam umas das outras e eu embaraço-me pela sobre proteção que se faz lá longe de onde eu venho.

Aqui, onde os recursos e a terra abundam, mas onde a vida é bem dura para a maioria das pessoas: no pouco que se tem, muito se partilha… E eu…? Coro de vergonha pela cultura elitista, egoísta, do ‘cada um por si’ que se fomenta lá no distante e abastado hemisfério norte.

Aqui, onde o sol é relógio, diariamente me reinvento, reaprendo conceitos, posiciono-me e ganho novas perspetivas sobre coisas que, do alto dos meus 32 anos, ‘soberbamente’ dava por adquiridas.

A verdade é que todos os dias sou surpreendido por um novo velho gesto, por uma ideia reciclada, por uma nova forma de ver velhas coisas. Como me dizia o meu pai há alguns anos atrás: um ‘abre olhos’.

Após um período do tempo de missão dedicado ao diagnóstico territorial em Moçambique, onde tive o privilégio de conhecer imensas culturas apaixonantes e povos dentro de um povo riquíssimo e singular, regresso a Cuamba e começo a trabalhar com o Luís, outro dos voluntários LD, nas Escolinhas Comunitárias do Niassa (ECN).

Com isto, chego ao contacto com o Sr. Paulino, supervisor-geral das ECN, duas entidades verdadeiramente indissociáveis. O Sr. Paulino é as ECN e as ECN são o Sr. Paulino, não colaborasse ele com os Leigos para o Desenvolvimento neste projeto há mais de 20 anos.

Gostava de poder descrevê-lo, mas não sei se há palavras para tal, talvez a forma mais fácil fosse chamar-lhe Super-Homem e ponto final. Consciente, trabalhador, dedicado, respeitador, bem-disposto, resiliente, dinâmico, pontual, disponível, prestável, responsável, incansável e muitas outras coisas terminadas em ‘vel’, bem como palavras que estarão por inventar.

Sr. Paulino na campanha de vacinacao

Hoje em dia dispõe de uma mota, mas houve tempos em que percorria 120 km (!) por dia de bicicleta, entre Muheia e Xirrosso, apenas para se certificar de todos os trabalhos nas Escolinhas dessa zona corriam bem, para perceber as inquietações dos monitores ou como estavam as crianças.

Trabalhar com o Sr. Paulino é uma honra, um privilégio, um regalo… É estar perante uma pessoa que me faz questionar a cada dia: “de onde nasce a competência?” É estar perante alguém que me mostra que a competência não é uma questão de dinheiro ou recursos. Alguém que deveria poder viver para sempre.

Visita a Muheia Andre e Sr.Paulino

Deixa-me inclusive a pensar, quanto valeria uma pessoa assim lá no sítio de onde venho? Esse sítio onde as pessoas são um número.

Se o mundo tivesse mais Paulinos seria, por certo, um sítio bem melhor.

E eu, perante tudo isto, sinto-me pequenino, grato, desfruto e tento crescer o quanto posso com pessoas assim.

André Patrício
Cuamba, 2017-2018
S. Tomé e Príncipe, 2016-2017