Testemunhos

Regressei a Benguela e senti-me em casa

Quase 20 anos depois regressei a Benguela, à mesma cidade onde fui missionário com os Leigos para o Desenvolvimento (LD), durante 2 anos.

Quando, ainda no avião, de regresso a Portugal, refletia sobre as três semanas que aí passei, a sensação de me ter sentido em casa era muito forte. Nada em mim era estranho. Dog Murras continua atual: “A sofrer a sofrimento / tamos a subir mesmo assim”1. Senti ainda que estava agora mais preparado para ficar em missão que há 19 anos atrás.

Confesso que tinha o sonho de um dia poder voltar a esta terra, aos sítios por onde caminhei e rever amigos. Era também um sonho, agora como sacerdote, poder celebrar missa nos locais e com as pessoas com quem partilhei esses anos da minha vida: no bairro da Damba-Maria, no Convento das Monjas Dominicanas, na Casa do Gaiato, nas Doroteias, na Sé Catedral e, claro, visitar o Dom Óscar (Bispo emérito de Benguela). A todos estes sítios queria regressar e dar graças por tanto bem recebido - A vida quando nutrida pelo agradecimento é outra coisa.

Não regressei com muitas expectativas, nem sequer de voltar a encontrar pessoas ou os lugares como os tinha deixado. Voltei com uma grande abertura para acolher a novidade e sobretudo com um grande desejo de estar com os voluntários LD que estão no terreno, de os escutar e ver o que fazem. E que alegria trago por ver como se dão às pessoas e trabalham pelo desenvolvimento integral. Continuam a ser “manos”.

O primeiro sítio que visitei foi o bairro da Damba-Maria, onde trabalhei durante os meus dois anos de missão. Pedi à Teresa e à Rita, que me tinham ido buscar, para entrarmos no bairro. Enquanto o carro percorria a rua principal, em terra batida, recordei as centenas de vezes que por ali passei e era recebido ao som de crianças que gritavam, e depois fugiam: Katchindélé (branquinho), e eu respondia Katchinbundo (pretinho). Assim construímos cumplicidade e confiança. Tudo isto povoava a minha imaginação. Depois dirigi-me à praia e “exorcizei” a saudade. Chorei e rezei ou rezei e chorei: “Obrigado Pai por tanto bem recebido”.

Ainda antes de partir de Portugal algumas pessoas diziam: não vais conhecer Benguela! Mas fiquei com a sensação que Benguela não mudou muito. É verdade que há muitos mais portugueses, negócios, universidades, alguns edifícios novos e muitos carros, mas no essencial senti tudo muito parecido. Ao mergulhar nos bairros e ao contactar as pessoas vi que o seu estilo de vida continua muito parecido. Continua a estar presente a expressão de resignação à injustiça: “vamos fazer mais quê?”. As “mamãs” continuam na árdua luta diária de alimentar os seus filhos. As crianças continuam a ter aulas debaixo de uma árvore ou chapa de zinco e a terem de levar cadeiras de casa. Os mercados e os pequenos negócios paralelos continuam a ser o sustento de muitos milhares. Os bairros continuam sem saneamento e energia elétrica numa boa parte do dia. E os rostos continuam estranhamente a sorrir. Dostoiévski dizia que “a beleza salvará o mundo”, a mim apetece-me dizer que “o sorriso salvará”.

Foi bom estar com o Gonçalo, a Marta, a Rita e a Teresa, e sentir neles a beleza do “mesmo espírito LD” – simplicidade de vida, entrega aos mais pobres e uma alegria imensa em se darem. Os frutos? Não nos compete a nós e muitas vezes são demorados. Alegremos porque “somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lc 17,10). Senti e vi, no entanto, alguns frutos que vão ficando ao falar com tanta gente que se recorda dos vários voluntários LD que foram passando, e de como foram importantes para as suas vidas.

P Fernando e Comunidade Benguela

Voltei a beber a Ngola, a comer uma boa muamba de galinha, voltei a ouvir e cheirar o mar da praia morena, voltei a andar de cupapata, voltei a ouvir: vamos fazer mais quê? Yhá, Wualálé, e voltei a ver aquele jeito sorridente de viver. “Kuiou bué” e percebi porque parte de mim ali ficou e fica. Senti-me em casa.

P. Fernando Ribeiro, sj

1 - Trecho da letra da canção de Dog Murras “Aqui Tass” (2001)