Testemunhos

Do alto de Porto Alegre

Hoje escrevo do “alto de Porto Alegre”. Um cantinho tão simples quanto especial, no cimo de um monte que permite avistar grande parte da comunidade.

Sempre que passo por aqui com tempo para estar “inteira” neste lugar, ganho a possibilidade de contemplar, descansar, agradecer, encontrar-me.

Daqui vejo algumas estruturas da comunidade: a nossa Igreja a ser reabilitada, a estrada que passa pelo campo de futebol ainda com a terra remexida do arranjo levado a cabo pelo Grupo Comunitário, a Escola, o novo edifício do CREF (Centro de Recursos Educativos e Formativos), a fábrica da Farinha de Mandioca e, já a perder de vista, um pouco do Centro Cultural Comunitário. Olho e penso na missão dos Leigos para o Desenvolvimento. Agradeço podermos pertencer a estas comunidades e as consequências desta proximidade: o trabalho em conjunto, as relações que criamos, as perspectivas partilhadas, a vontade de juntar as mãos, mesmo quando isto é difícil e implica ajudarmo-nos uns aos outros a procurar os interesses da comunidade acima de qualquer interesse pessoal.

Vista de PA do alto de PA

Ao lado da escola, temos a “sanzala”, o sítio onde se aglomeram as casas de habitação, próximas, com pouco espaço, alguns quintais partilhados. Olho e procuro identificar a quem pertence cada uma delas e agradeço o privilégio de reconhecer o rosto e o nome de tantos, termos vida e histórias partilhadas. Aqui ganho amplitude de olhar para poder admirar esta vida onde o normal é estar-se junto, a lavar roupa num tanque comunitário, a cozinhar no quintal acompanhado por alguém que se junta para conversar, a vender milho e banana assados, a trançar o cabelo da vizinha num banco em frente à porta de sua casa… Admiro as crianças que brincam juntas, que resolvem entre si as suas zangas, que correm por todas as casas e lugares da comunidade. Agradeço este sentimento de familiaridade que nem sequer me atrevo a tentar explicar.

Mais à frente, o mar rodeia toda esta terra e como é bonito este mar... Também eu me sinto rodeada por todos os que trago no coração, que mesmo sem estarem neste lugar, pertencem-me, pertenço-lhes e permanecem.

Por fim, olho para cima e, como sempre, deixo-me envolver pelo voo dos falcões que embelezam o céu, tantas vezes cinzento, como hoje. Estes falcões vão alimentando a minha vontade de “voar” sempre mais alto, não para me distanciar, pelo contrário, para me aproximar do Alto e poder olhar para este “todo” tão bom e belo. Saio daqui sempre grata! É tempo de descer e de pedir a graça de aprender esta lição que tem sido difícil de assimilar, de que é preciso aceitar e apreciar as imperfeições porque também compõem o “todo”, também dão espaço à presença de Deus nesta missão.

Joana Marques
S. Tomé e Príncipe, 2017-2018