Testemunhos

No lugar certo, no tempo certo

Apesar de a terra vermelha ter acabado por desaparecer das solas dos meus pés, Cuamba e o seu povo nunca me saíram do coração e nunca estiveram longe dos meus pensamentos. O mês de Dezembro foi tempo de cumprir o período de férias em Portugal que marca a transição para o segundo ano de missão.

É verdade que gosto muito de viver em Cuamba mas estaria a mentir se dissesse que não tinha saudades dos confortos e das pessoas da minha “antiga” vida. Acordar na minha cama, levantar-me e ter a minha família em casa. Ir ao supermercado e comprar qualquer espécie de comida que me apetece. Sair com os meus amigos ou simplesmente jantar, conversar e rir pela noite dentro. Pegar no carro e ir ao futebol. Ir a uma livraria comprar um livro. Jogar padel e futsal com os amigos de sempre. Comer comida de plástico e ir ao cinema. Poder desligar o cérebro e ver televisão, entre tantas outras coisas…

Mas este regresso foi também um tempo de reflexão e agradecimento. Passamos a vida a desejar ter mais e mais mas esquecemo-nos de valorizar uma enorme riqueza que possuímos e porventura não nos damos conta. Ter os pais vivos é um dos maiores tesouros que podemos ambicionar. Mas há mais. Ter os filhos, irmãos, avós e todos aqueles que nos são queridos por perto e de boa saúde é também um enorme privilégio. Ter um trabalho para fazer, uma missão para cumprir ou uma tarefa a desempenhar, seja ela qual for, também é uma sorte. Mesmo quando nos queixamos de excesso de trabalho sabemos que é preferível ter trabalho demais que trabalho nenhum. Ter amigos é também uma riqueza sem igual. Apostar nas amizades é seguramente mais rentável do que apostar no euromilhões. Mimar os amigos, telefonar e marcar encontros são excelentes maneiras de criar riqueza. Viver num país que não está em guerra, onde não há conflitos de maior nem catástrofes naturais é igualmente uma sorte. As faculdades de falar, pensar, ver, ler, ouvir e caminhar devem também ser encaradas como enormes privilégios. Só quem já passou por uma experiência de privação de algumas destas faculdades ou quem vive permanentemente com graves dificuldades físicas é que dá o devido valor a esta riqueza. E estes são apenas alguns exemplos de privilégios que, em maior ou menor percentagem, vamos dando por adquiridos mas que têm neste contexto um outro significado.

Entretanto regressei a Cuamba no final do mês e não foram precisos muitos dias para que um dos supervisores das Escolinhas Comunitárias do Niassa, projeto que acompanho, talvez preocupado com um eventual regresso aos meus hábitos europeus, me relembrasse onde estava. Os africanos não são famosos por aparecerem a horas seja onde for, aliás a maior parte das reuniões ocorre em “tempo africano”, que regra geral, está várias horas atrasado em relação ao “tempo real”. Isto é, quando ocorrem. E foi assim que duas horas depois do combinado, após uma troca de mensagens em que me pediu paciência percebi que estava na hora de regressar a casa e reagendar a reunião.

Não obstante estas e outras adversidades, a maior parte do tempo, sinto-me feliz e privilegiado por viver em Cuamba. Visitar as escolinhas e as comunidades é sempre uma alegria para mim. Gosto de me sentir rodeado pela crua necessidade humana que parece estar exposta por todo o lado, como que para nos lembrar o quanto precisamos de Deus. Fico maravilhado com a gratidão e felicidade que as pessoas expressam pelas suas simples vidas.

Criancas a caminho da escolinha de Chirrosso

Na verdade, continua a ser uma sensação difícil de explicar, esta de saber, sem margem para dúvidas que estou, por agora, onde fui feito para estar. Saber, no fundo da minha alma, que estou em casa. E para mim este é apenas o resultado de seguir Jesus. Fazer o pouco que posso e confiar n'Ele para tratar do resto.

Luís Santiago
Cuamba, 2016-2018