Testemunhos

A quem de direito

Para vos dizer a verdade sinto que, por vezes, para escrever estes testemunhos precisava de vestir a pele de quem me dá histórias para vos testemunhar. Bem sei que o suposto é testemunhar a minha própria vida aqui mas sinto-me em construção por tanta Graça recebida até agora. Sinto que o que tenho de testemunhar são as testemunhas de sobrevivência que vivem no Bairro e que, sobrevivendo, vivem mais do que eu.

Por isso, dei como título ao meu testemunho “ A quem de direito”, por ser meu dever falar sobre quem me descompôs das minhas “mariquices e complexos de coração”, fruto de quem nunca arriscou, e me compõe todos os dias com simplicidade e genuinidade e pobreza de ego. É do seu direito serem testemunhadas, serem ouvidas, serem acalentadas para não ficarem esquecidas.

O testemunho que vos deixo hoje é de uma mamã que se chama Maria Madalena, mais conhecida por Mãe Maria. A mãe Maria não deve ter mais do que metro e meio, meia desdentada mas sempre a sorrir, mulher da terra que planta e cuida, mulher dos panos que vende e cuida, mulher do sabão que mexe e cuida, mãe de filhos crescidos de quem cuida, avó de netos ainda por crescer de quem cuida com mais atenção.

Talvez não vos vá testemunhar uma história de vida incrível que vos abale e vos deixe sem chão. Também não quero que isso aconteça. Só quero fazer jus a esta mulher que me abalou e me fez sua filha de quem cuida agora também.

A história que vos conto foi numa manhã igual às outras mas era diferente das outras. Combinei com a mãe Maria que ia a casa dela beber um chá, comer bolinhos e saber da sua vida. Os poucos dentes não tardaram a aparecer juntamente com as rugas no canto dos olhos quando sorriu, e disse radiante “Ai é filha? Vem que a Mãe Maria vai mostrar à filha!”. Quando o trabalho com o sabão já tinha chegado ao fim avançamos pelo bairro a dentro, por ruelas estreitas e lamacentas, que iam sendo acompanhadas por vozes que nos cumprimentavam e abençoavam o dia.

Passado pouco tempo chegamos a casa da mãe Maria, ao seu quintal que dividia com os seus filhos e netos e bisnetos. Levou-me à sua sala/cozinha onde nos sentámos a comer os bolinhos e onde me descortinou a sua vida. Mulher que foi abandonada pelo marido e que, desde cedo, foi e é o único sustento da sua família. Acorda às 4h30 para plantar e colher os legumes certos para vender, depois ainda vai orar pois “é a rezar que Deus sabe que estou aqui e que me ajuda e me dá força!”, dizia-me ela. Noutros dias vai ao sabão que faz com muito cuidado e paciência, a receita é sempre a mesma, o processo não há-de mudar e ali encontra alguma companhia e alento por saber que dali consegue tirar uma caixa de pacotes de massa ou de óleo ou de arroz. Para além disto ainda vende uns tecidos africanos que guarda religiosamente debaixo da sua cama. Deu para perceber que o dinheiro ao fim do mês a faz passar fome e lhe tira o sono porque essa fome também passa para a sua família.

Nesta realidade, nesta pobreza, nesta precaridade onde estava apenas de visita a mãe tira do seu saco de tecido um pano e diz-me “É teu filha, leva... A mãe quer dar!”. Foi quando tudo me caiu, foi quando tudo me pareceu injusto e insólito. Aquele pano era das poucas subsistências que esta mamã tinha para pôr comida no seu prato e no prato dos seus netos, e ela preferiu dar-mo a mim e reforçando “o dinheiro vai vir e depois vai, o mais importante é o que fica.“

E ela quis que ficasse e eu fiquei.

Obrigada mãe Maria, a sua coragem e força não ficarão esquecidas. Este testemunho está entregue a quem de direito de facto.

Mama Maria

Teresa Cruz
Benguela, 2017-2018