Testemunhos

A Távola Redonda Santomense

Com alguma imaginação podemos comparar a dinâmica organizacional e participativa do Grupo Comunitário da Boa Morte à dos Cavaleiros da Távola Redonda, pela primeira vez escrita por Wace, no século XII. Na lenda, os Cavaleiros escolhidos pelo rei reuniam-se na Távola Redonda, simbolizando a posição de igualdade e a honra para os homens de confiança do rei, a fim de discutirem e definirem estratégias de batalha.

Ora, no Grupo Comunitário da Boa Morte, os representantes das várias entidades presentes no bairro da Boa Morte (Igrejas, Associações Desportivas e Culturais, Grupos de Jovens, a Câmara Distrital, Comerciantes, etc.), apesar de não terem o título de Cavaleiros, reúnem-se à mesa para discutir os problemas do bairro identificados pela comunidade e procurarem soluções.

Também no Grupo Comunitário, todos os presentes se encontram em pé de igualdade, independentemente da entidade representada ou da ocupação/profissão, habilitações literárias e o tempo de vivência no bairro do representante.

Após vários anos em que os voluntários LD no terreno se esforçaram por demonstrar os enormes benefícios que podem surgir de uma dinâmica participativa comunitária – não só pela garantia de que não são impostas ideias de um grupo mais influente mas se trabalha a partir dos problemas identificados por toda a comunidade, como também pela garantia da apropriação dos projetos pela mesma, da sustentabilidade e continuidade das soluções implementadas, atualmente, o Grupo Comunitário encontra-se em fase de aprofundamento das reflexões dos problemas assinalados e, bem assim, de implementação das soluções já identificadas.

Ao longo do próximo ano, a intervenção do Grupo Comunitário incidirá, essencialmente, nos seguintes projetos: no encontro de uma solução para a falta de resposta educativa para crianças dos 3 aos 6 anos no bairro; a organização de locais para cuidar de crianças dos 0 aos 3 anos, para permitir que os pais/mães de família (muitas delas, monoparentais), que não têm onde deixar os filhos durante o período de trabalho, não deixem de trabalhar; a sensibilização da comunidade para a importância do tratamento dos resíduos sólidos; a colocação de contentores de depósito de lixo e a recolha do mesmo.

Para tanto, e à semelhança da experiência dos Cavaleiros da Távola Redonda, o Grupo Comunitário reúne os esforços da comunidade para que, juntos, consigam pôr em prática as estratégias delineadas à mesa, promovendo o desenvolvimento de todos os que habitam no bairro.

Não sei se o Grupo Comunitário da Boa Morte se tornará tão famoso quanto a lenda da Távola Redonda dos Cavaleiros do Rei Arthur, mas acredito que a dinâmica participativa em igualdade e o reconhecimento e confiança depositados em todos Cavaleiros da Boa Morte, permitirão que também o Grupo Comunitário vá conquistando várias batalhas.

Resta aguardar para saber o que acontecerá à Távola Redonda Santomense, pois o seu final continua por escrever…

Cavaleiros Tavola Santomense

Constança Nunes
São Tomé e Príncipe, 2017-2018