Testemunhos

E não é que Ele estava mesmo a ouvir?!

No passado dia 10 de setembro, ainda em Coimbra e antes de partir para Lisboa para a Missa de Envio, consegui pôr de lado toda a azáfama típica daquele dia, deixei os meus pais mais um tempinho à espera no carro e sentei-me 5 minutos. Abri uma folha e comecei a escrever o meu compromisso, que me tinha sido pedido para entregar no Ofertório daí a umas horas.

Uma das coisas que escrevi neste no meu compromisso foi a Oração de Santo Inácio. Esta oração que me diz tanto e que me acompanha desde os meus primeiros passos sérios de fé; passos que eu dei enquanto aluno do CAIC, Colégio dos Jesuítas em Cernache. Já rezei estas palavras de entrega de Santo Inácio de Loyola vezes e vezes sem conta. Mas naquela manhã, foi diferente!

“Tomai Senhor e recebei.
Toda a minha liberdade.
A minha memória.
E o meu entendimento.
Toda a minha vontade.
E tudo o que eu possuo.
Vós mo destes. A Vós o restituo.
Tudo é Vosso, disponde.
Pela Vossa Vontade.
Dai-Me apenas Senhor.
O Vosso amor e GRAÇA!”

E por uns momentos tudo parou…

Deus esteva mesmo a ouvir-me. Ele deu-me mesmo a sua Graça, conforme eu lhe andei a pedir todo este tempo. Uma Graça muito concreta: A Graça de conhecer o Bairro da Graça!

Desde este dia já passaram praticamente dois meses. Mas posso dizer-vos: parece que já passou um ano. Cada dia aqui parecem quatro. Há tanta coisa que acontece e somos chamados a fazer tanta coisa, a viver tanta coisa, que à noite quando nos vamos deitar olhamos para trás e aquilo que fizemos de manhã, parece que já foi anteontem.

Gosto destas gentes, destas cores, destes sabores, destas terras, destes cheiros, destes mares. Gosto da forma como me tratam e sinto-me muito realizado com cada coisa que faço, por mais pequena que ela seja.

Goncalo no Bairro da Graca

Sinto-me pequeno perante o tamanho das coisas que me são pedidas. Sinto-me pequeno quando olho para trás e vejo a quantidade de rostos que já passaram pelo meu lugar. Sinto-me ainda mais pequeno perante a forma como me acolheram. Dou por mim a pensar como é que eu trataria qualquer uma destas pessoas se elas me aparecessem no meu bairro, à porta da minha casa!

Todos os dias são uma surpresa e isso é bom! Há dias em que parece que lá na obra da Graça, nada vai acontecer e depois do nada aparece uma máquina que alguém arranjou e nos poupa 5 dias de trabalho e umas bolhas nas mãos. Há outros dias em que estava a contar com um camião de brita na obra e ele não aparece porque o camião está retido algures numa Província distante de Angola. Esses são os dias em que se calhar tenho mais tempo para jogar à bola com os miúdos do bairro, ter uma conversa com o Professor Clemente ou ir mais cedo para casa para jogar uma partidinha de cartas com as minhas manas!

Como dizia antes de partir, ainda não sei o tamanho do que estou prestes a viver… Mas sei que daqui a muitos anos, quando estiver algures por aí a rezar a Oração de Santo Inácio, nunca mais vou ler esta palavra sem me lembrar deste Bairro, destas pessoas, desta Graça que Deus me deu! A Graça de conhecer a Graça! Obrigado!

Gonçalo Vaz Pedro
Benguela, 2017-2018