Testemunhos

Estou aqui para amar

As pessoas que habitam este fascinante país espanta(ra)m-me com a sua graciosa bondade e os seus modos gentis. Ainda hoje vejo, de olhos escancarados, como vacas, cabras e galinhas passeiam em liberdade pelas vilas e aldeias enquanto as crianças curiosas deambulam por entre as cabanas e lojas improvisadas (como os pequenos comércios que vendem bebidas enlatadas, alguidares de zinco ou crédito para telemóveis).

Na cidade, desenrola-se o género de vida quotidiana que acontece em todas as sociedades, cada uma à sua maneira: pessoas a fazer compras nas ruas principais, a ir ao banco, a encontrarem-se com amigos e a conversarem nos “passeios”. Nas aldeias, homens e mulheres descascam milho, cozinham, conversam ou simplesmente sentam na berma da “estrada” a contemplar em silêncio os acontecimentos da vida comum. Tanto nas cidades como nas aldeias, as crianças estão por todo o lado. Quando vêem uma pessoa com uma pele de cor diferente, riem e gritam. Algumas correm para mim, outras encolhem-se e fogem à vista de um mucunha1. As que não têm medo agarram-me as mãos como se fôssemos amigos desde sempre. Tem sido fácil para mim encantar-me por elas e pelo país onde vivem e onde uma enorme beleza ombreia ainda com uma miséria difícil de explicar.

Lembro-me bem do dia. Com que orgulho o menininho, descalço e de cabeça rapada me levou a sua casa. Muito excitado apresentou-me à sua família. E esta, ao ver um mucunha1 examinou-me com atenção. No mesmo instante foi preparado um “banquete” de chima e feijão, um dos pratos base da dieta moçambicana e provavelmente tudo o que a família tinha para comer naquele dia. Uma das crianças foi a correr buscar uma esteira para eu me sentar, mas todos os outros se sentaram no chão de terra. A família não pediu desculpa pelo facto de não haver mesas, cadeiras e talheres para a refeição ou mesmo para facto dos 7 mal cabermos com o mínimo de conforto na casa. Alimentaram-me como um rei, desejando ter mais para me dar. Partilharam comigo, sem reservas, dando tudo o que tinham e acreditando que Deus providenciaria mais à medida da sua necessidade. Agradeciam o que Deus lhes tinha dado, aquela pequena casa e uns poucos quilos de comida que partilhavam com gosto. Perguntei-me o que poderia acontecer se todos partilhássemos como aquela querida família partilhou comigo…

Partilha Mocambique

Muitas pessoas me perguntam por que razão, a meu ver, África é tão pobre. Mas é esta mesma pobreza que permite numa mesma circunstância assistir ao melhor e ao pior da condição humana: situações de grande necessidade, sofrimento, tristeza, desespero, dureza e perda e, em simultâneo, enormes demonstrações de amor, de serviço, de entrega, de solidariedade e dedicação difíceis de explicar.

E logo me lembro, não estou aqui para eliminar a pobreza, erradicar a doença ou acabar com a fome. Estou aqui para amar. E mais uma vez agradeço, por fazer parte deste plano e poder testemunhar diariamente a acção do Espírito Santo no mundo, através de cada pessoa que se cruza no meu caminho.

Luís Santiago
Cuamba, 2016-2017

1 - Branco em macua